O Filho Preferido
A realidade que toda família conhece, mas ninguém quer nomear. Escrito por Paulo Gomes, psicólogo e psicoterapeuta.
Paulo Gomes
5/11/20268 min read


Você tem um filho preferido?
A pergunta mal termina e o desconforto já aparece. A maioria das mães responde com uma negativa imediata, quase reflexa, como se admitir sequer a possibilidade fosse uma confissão de falha moral. Mas e se essa negação disser mais sobre nós do que a própria resposta? E se a recusa em olhar para essa realidade for, ela mesma, um problema?
Este texto não busca fazer uma acusação. É um convite para olhar ao espelho especialmente às vésperas do Dia das Mães, quando costumamos celebrar a maternidade com flores e palavras bonitas, mas raramente com honestidade.
A túnica que separa
Um dos relatos mais antigos sobre favoritismo entre filhos está na Bíblia cristã e acaba sendo brutalmente honesto. Jacó amava José mais do que os demais filhos. Em Gênesis 37:3: “Amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice; e fez-lhe uma túnica de várias cores”. Não era um sentimento escondido, sussurrado em segredo. Era público, visível, bordado em tecido: ele presenteou José com uma túnica especial, aquela famosa túnica de muitas cores que obviamente destacava um dos filhos em meio aos outros.
A túnica não era apenas uma roupa. Era um símbolo de distinção e todos à sua volta sabiam o que ela significava. Os irmãos viram. Sentiram. E a inveja que nasceu dali quase destruiu uma família inteira. José foi vendido como escravo pelos próprios irmãos. A preferência de um pai teve consequências reais, profundas e duradouras.
O texto bíblico não romantiza o favoritismo. Ele o mostra como o que é: uma força capaz de fraturar vínculos, de envenenar silenciosamente o ambiente familiar. E faz isso há milênios, muito antes de qualquer estudo de psicologia ou de qualquer filósofo tentar nomear o que se passa nas profundezas de uma relação humana.
Quando a coroa não protege do coração
Séculos depois, a mesma questão bateu à porta do Palácio de Buckingham, ao menos na dramaturgia da série The Crown, da Netflix. Em um dos episódios mais marcantes da produção, a Rainha Elizabeth é confrontada com a possibilidade de ter um filho favorito.
Sua primeira reação é de indignação. A ideia parece-lhe um absurdo, uma acusação indigna. Ela é a rainha. Ela é mãe. Ela trata todos com a mesma equanimidade, ou ao menos é o que acredita.
Mas o Príncipe Philip a desestabiliza com uma rara honestidade: ele admite ter preferência pela filha Anne. Sem rodeios, sem vergonha excessiva, apenas a verdade dita em voz alta. E essa confissão planta uma dúvida incômoda na mente da rainha.
O que ela faz a seguir é revelador: começa a reunir-se individualmente com cada filho. À primeira vista, parece um exercício de equidade. Mas, assistindo com atenção, percebe-se que é outra coisa, é uma autopesquisa. A rainha está tentando se conhecer como mãe. Está investigando seus próprios afetos com a mesma seriedade com que conduziria um assunto de Estado.
O final do episódio não traz uma declaração. Não há confissão verbal, nenhuma túnica bordada. Mas há algo mais eloquente que palavras: um silêncio que diz tudo. A rainha sabe. E o espectador sabe que ela sabe. A coroa pode ser distribuída igualmente entre os filhos. O coração, nem sempre.
A afinação que ninguém escolhe: Heidegger e o afeto materno
Para entender por que a mãe nega com tanta convicção — e por que essa negação, mesmo sincera, pode estar errada — vale recorrer a um dos pensadores mais profundos do século XX. Martin Heidegger, em sua obra central Ser e Tempo, desenvolveu o conceito de Stimmung — traduzido como "humor", "disposição" ou, de forma mais precisa, "afinação".
A Stimmung não é um sentimento que você escolhe ter. É uma tonalidade afetiva em que você já sempre se encontra. Antes de qualquer raciocínio, antes de qualquer decisão consciente, você já está disposto de certa forma diante do mundo e diante das pessoas. Ela é pré-reflexiva, pois age antes que você perceba.
A metáfora musical é precisa: assim como uma corda afinada ressoa de forma diferente de uma desafinada, cada ser humano ressoa de maneira distinta com cada realidade que encontra. E é isso que acontece entre mãe e filhos: ela não está igualmente afinada com cada um deles, e isso não é, em sua origem, uma escolha moral. É uma estrutura existencial.
Aqui está, então, a explicação filosófica para a negação tão imediata: a mãe nega porque, no nível da consciência reflexiva, ela de fato não escolheu preferir. E nesse ponto ela está certa, só que incompleta. Heidegger diria: você não escolheu, mas a disposição é real. E ignorá-la não a dissolve. Ela continua operando por baixo de toda decisão, de todo gesto, de todo olhar.
Por isso a Rainha precisou das reuniões. Ela não conseguia acessar sua preferência pelo pensamento abstrato, ela precisou criar situações concretas, encontros reais com cada filho, para que a Stimmung se revelasse. Em Heidegger, é exatamente assim: a disposição não se descobre pela razão, mas pela experiência vivida, pelo contato com o mundo.
E o silêncio final da rainha? Também é heideggeriano. A Stimmung, para Heidegger, é anterior à fala. Algumas verdades existenciais resistem à verbalização não por covardia, mas porque sua natureza é pré-linguística. O silêncio da rainha não é evasão, é fidelidade àquilo que ela descobriu. Há coisas que se sabem antes de poder dizer.
Há ainda uma dimensão mais profunda nesse pensamento. Para Heidegger, a Stimmung não é apenas um "clima interno"; ela é o modo como o mundo se abre para você. E, portanto, também o modo como ele se fecha. Uma disposição ilumina certas possibilidades e encobre outras.
Aplicado ao tema: a mãe afinada com um filho enxerga nele potencialidades, fragilidades, belezas que simplesmente não consegue ver nos outros com a mesma nitidez. Não por má vontade, mas porque sua abertura perceptiva está tonalizada de forma diferente para cada um. E isso tem consequências práticas sérias: ela pode estar decidindo quem ajudar, quem elogiar, quem defender, quem acreditar, a partir de uma disposição que nunca examinou de forma racional.
Nesse ponto, a túnica de Jacó ganha um novo significado. Ao confeccionar aquela roupa para José, Jacó materializou sua Stimmung, deu forma concreta e visível a uma disposição que talvez nem soubesse nomear. O que era interno e invisível passou a estruturar o mundo compartilhado da família. E foi exatamente aí que o problema começou: não no sentimento, mas na sua externalização irrefletida.
O que a ciência confirma
A filosofia nomeia o fenômeno. A ciência o quantifica. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento, incluindo trabalhos da pesquisadora Katherine Conger, da Universidade da Califórnia, mostram que a grande maioria dos pais — quando em anonimato — admite sentir algum nível de preferência por um dos filhos. O número é expressivo o suficiente para que não possamos tratar o fenômeno como exceção. Em estudos dessa mesma autora, foi constatado que o conflito entre irmãos e o favoritismo parental foram positivamente associados a sintomas de depressão, ansiedade, hostilidade e solidão.
Os dados revelam nuances que complicam a narrativa simples de "favorito e preterido". A preferência não é necessariamente fixa — ela muda ao longo do tempo. O bebê que demanda mais cuidado pode ser o centro de atenção nos primeiros anos. O adolescente que provoca torna-se temporariamente o mais distante. O filho que ficou perto, que ligou toda semana, que apareceu nas crises — esse pode, com o tempo, ocupar um lugar diferente no coração dos pais.
Há também um padrão recorrente que ecoa o pensamento heideggeriano: tendemos a preferir o filho com quem estamos mais afinados, aquele que validou nossas escolhas, que herdou nossos valores, que nos enxerga com admiração. Não é frivolidade. É a Stimmung em funcionamento silencioso, moldando afetos antes que a razão tenha chance de intervir.
Quem carrega o peso, e não é quem você pensa
Quando pensamos nas consequências do favoritismo, a imaginação vai imediatamente para o filho preterido e faz sentido. Crescer sentindo que ocupa um lugar secundário no afeto dos pais deixa marcas. Pode alimentar uma busca por aprovação que dura décadas, manifestar-se em relacionamentos afetivos desequilibrados ou transformar-se em ressentimento silencioso que corrói os laços fraternos.
Mas há outro lado dessa história que raramente é contado: o filho preferido também paga um preço.
José, na Bíblia, foi amado em excesso e quase morreu por isso. O peso das expectativas depositadas no favorito pode ser esmagador. Há a culpa implícita por um privilégio que não pediu. Há o isolamento provocado pelos irmãos. Há a pressão de não decepcionar quem tanto investiu. E, muitas vezes, há uma dificuldade genuína em desenvolver autonomia, porque parte de sua identidade sempre foi reflexo da aprovação parental.
Em termos heideggerianos: o filho preferido é aquele cuja existência foi tonalizada pelo excesso de atenção do outro. Sua abertura para o mundo foi, desde cedo, filtrada pela projeção parental. Ele cresceu vendo a si mesmo pelo reflexo dos olhos que mais o admiravam e isso pode ser tão problemático quanto crescer invisível.
O favoritismo não distribui bem-estar. Ele redistribui o sofrimento.
A maternidade autêntica
Heidegger faz uma distinção fundamental entre existência autêntica e inautêntica. A inautenticidade não é maldade — é simplesmente o modo de quem vive sem examinar o que já sempre está operando nele. É deixar-se conduzir pelas disposições sem nunca interrogá-las.
A mãe que nega a preferência e nunca a examina está, nesse sentido, vivendo inautenticamente sua maternidade, não porque seja má mãe, mas porque está sendo governada por uma Stimmung que ela nunca iluminou. E o que não é visto não pode ser corrigido.
Existe também uma distinção que este texto precisa fazer: sentir uma afinidade maior com um filho não é o mesmo que amá-lo mais. O amor materno, quando genuíno, é incondicional e indivisível. A afinação, no entanto, tem outra natureza. Ela é construída por temperamentos que se encontram, por histórias compartilhadas, por momentos que criaram ressonâncias particulares.
O problema não é sentir. O problema é não saber que sente e, portanto, não conseguir agir com justiça.
A Rainha Elizabeth, que, ao final do episódio, reconhece internamente sua preferência, é uma rainha mais consciente do que a que negava a possibilidade. É uma versão mais autêntica dela mesma, no sentido heideggeriano mais preciso. E uma mãe mais consciente tem mais chances de se corrigir, de compensar, de olhar para cada filho como um ser único que merece ser visto, não apenas amado em abstrato, mas reconhecido em sua singularidade.
O presente que ninguém embrulha
No Dia das Mães, enchemos as mesas de flores e cartões com palavras que celebram o amor incondicional. É bonito. É necessário. Mas talvez o presente mais raro que uma mãe possa dar aos seus filhos não venha em embrulho nenhum.
É o presente de ser vista. Cada filho, por quem é, não pelo lugar que ocupa na hierarquia invisível do afeto familiar. É a mãe que se faz a pergunta difícil, que senta consigo mesma como a rainha sentou com seus filhos, que interroga sua própria afinação com a coragem de quem prefere a verdade desconfortável à ilusão confortável.
Heidegger nos lembra que não somos culpados pelas disposições em que nos encontramos. Mas somos responsáveis pelo que fazemos com elas depois que as reconhecemos.
Jacó deu a José uma túnica. Talvez o que os outros filhos precisassem não fosse uma túnica igual, mas apenas um pai que parasse, olhasse fundo e se perguntasse:
com quem eu ainda não estou afinado e o que posso fazer a respeito?
Esse presente, ainda dá tempo de dar.
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